A Huawei começou a ser julgada criminalmente em Nova York nesta quarta-feira (9), em um processo iniciado há oito anos e que se tornou uma das mais importantes ações judiciais dos Estados Unidos contra uma empresa chinesa.
A companhia é acusada pelas autoridades norte-americanas de fraudar instituições financeiras internacionais em operações relacionadas a violações de sanções contra Irã e Coreia do Norte, além de participar de uma conspiração para obter propriedade intelectual de seis empresas dos Estados Unidos.
O processo atravessou diferentes governos norte-americanos desde que foi aberto durante o primeiro mandato de Donald Trump e chega agora ao julgamento em um momento de renovada tensão nas relações entre Washington e Pequim.
Acusações incluem obtenção de segredos comerciais
Segundo os promotores norte-americanos, a Huawei teria utilizado diferentes estratégias para obter tecnologias desenvolvidas por concorrentes.
A acusação sustenta que funcionários poderiam receber bônus pela obtenção de informações confidenciais e segredos comerciais de empresas rivais.
Em um dos episódios apresentados no processo, um professor universitário teria sido pago para se apresentar como pesquisador e conseguir acesso a um chip desenvolvido por uma companhia norte-americana, com o objetivo de copiá-lo.
A Huawei contesta as acusações.
O caso envolve ainda operações financeiras relacionadas a países submetidos a sanções pelos Estados Unidos. Segundo a acusação, instituições financeiras teriam sido induzidas a realizar operações sem conhecimento adequado sobre os vínculos das transações.
Sanções não impediram crescimento da Huawei
Independentemente do resultado do julgamento, o processo ocorre diante de uma Huawei bastante diferente daquela que enfrentou as primeiras restrições norte-americanas.
Desde 2019, a empresa está submetida a restrições comerciais dos Estados Unidos e permanece praticamente excluída do mercado norte-americano.
As medidas dificultaram seu acesso a tecnologias e fornecedores dos EUA, mas também levaram a companhia a acelerar o desenvolvimento de alternativas próprias e reduzir sua dependência da cadeia tecnológica norte-americana.
No primeiro semestre de 2026, a Huawei registrou lucro líquido de US$ 3,54 bilhões.
A dimensão financeira da companhia faz com que uma eventual penalidade precise alcançar valores elevados para produzir impacto significativo sobre suas operações.
Processo já provocou crise diplomática
O caso também está ligado a um dos episódios mais delicados das relações recentes entre China, Estados Unidos e Canadá.
Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei, foi presa no Canadá a pedido das autoridades norte-americanas em meio às investigações relacionadas ao processo.
Ela permaneceu no país até 2021, quando chegou a um acordo com o governo norte-americano e retornou à China.
A prisão transformou uma investigação empresarial em uma crise diplomática e tornou a Huawei um dos principais símbolos da disputa tecnológica entre Washington e Pequim.
Julgamento acontece às vésperas de encontro entre Trump e Xi Jinping
O calendário acrescenta uma dimensão geopolítica ao processo.
O julgamento pode se prolongar até dezembro e começa poucas semanas antes da cúpula entre Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping, prevista para 24 de setembro, em Washington.
Embora o processo judicial tenha trajetória própria e atravesse diferentes administrações norte-americanas, seu desfecho ocorre em um ambiente no qual tecnologia, propriedade intelectual, semicondutores e segurança nacional se tornaram pontos centrais da disputa entre as duas maiores economias do mundo.
O julgamento da Huawei, portanto, vai além de uma possível multa. Ele coloca novamente no centro das atenções uma questão que acompanha a relação entre Estados Unidos e China há anos: até onde uma disputa empresarial termina e começa uma disputa por liderança tecnológica global?
Leia mais:





