Levedura criada pela Unicamp pode ampliar produção de etanol de milho sem aumentar consumo de grãos

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma levedura geneticamente modificada capaz de aproveitar parte do amido que atualmente não é convertido durante o processo de fermentação do milho. Segundo os pesquisadores, esse desperdício pode chegar a 10% do amido presente em cada tonelada processada.

A tecnologia, anunciada em 6 de setembro, apresentou resultados promissores nos testes de bancada e agora passa por validação em escala industrial. A inovação já foi licenciada para a Bionfood, empresa-filha da universidade.

Se o desempenho observado em laboratório for mantido em escala comercial, a solução poderá representar um ganho importante de eficiência para a indústria de etanol de milho: produzir mais biocombustível utilizando a mesma quantidade de matéria-prima.

A possibilidade ganha relevância especialmente nos estados onde a produção de etanol de milho vem crescendo e aumentando a demanda pelo cereal, como Mato Grosso do Sul.

Amido que não vira etanol

Na produção do biocombustível, o amido presente no milho precisa ser convertido em açúcares que posteriormente serão fermentados pelas leveduras para geração do etanol.

Parte desse amido, entretanto, não é aproveitada ao longo do processo.

É justamente nessa perda que a tecnologia desenvolvida pelos pesquisadores da Unicamp procura atuar. A levedura geneticamente modificada foi desenvolvida para recuperar parte desse material e aumentar o aproveitamento do milho dentro da própria unidade industrial.

O potencial econômico está na eficiência: se uma parcela maior do amido contido no grão puder ser transformada em etanol, as usinas poderão obter mais litros do combustível a partir da mesma tonelada de milho, sem que o ganho dependa necessariamente da compra de uma quantidade maior do cereal.

Tecnologia entra agora no teste decisivo

Apesar dos resultados obtidos em bancada, a tecnologia ainda precisa demonstrar seu desempenho nas condições encontradas nas usinas.

A validação em escala industrial é uma etapa importante porque fatores como volume de produção, estabilidade da levedura, características do processo e custos de implementação podem determinar a viabilidade econômica da inovação.

Por isso, os resultados de laboratório representam uma perspectiva promissora, mas ainda não significam que todo o amido atualmente não aproveitado poderá ser convertido em produção adicional de etanol nas mesmas proporções em escala comercial.

O licenciamento para a Bionfood representa justamente um passo na direção da transferência da tecnologia desenvolvida na universidade para aplicações industriais.

Ganho de eficiência pode ser estratégico para Mato Grosso do Sul

A inovação também chama atenção pelo momento vivido pela cadeia do milho em Mato Grosso do Sul.

O estado consolidou-se como um dos polos do biocombustível no Centro-Oeste, enquanto a expansão das usinas vem criando uma nova fonte de demanda para uma das principais commodities agrícolas da região.

Ao mesmo tempo, a previsão de redução de 20% na produção de milho nesta safra em Mato Grosso do Sul, conforme os dados apresentados, reforça a importância de tecnologias capazes de extrair maior rendimento da matéria-prima disponível.

Nesse contexto, aumentar a conversão do amido pode ter efeitos que vão além da produtividade dentro da fábrica. Uma maior eficiência industrial significa potencialmente reduzir a quantidade adicional de milho necessária para ampliar a produção de etanol.

Há também uma dimensão ambiental. Se o aumento da produção puder ocorrer pelo melhor aproveitamento do mesmo volume de matéria-prima, parte do crescimento poderá ser obtida sem depender proporcionalmente da expansão da área cultivada.

O próximo passo será verificar quanto desse potencial conseguirá efetivamente chegar às usinas. Se a tecnologia mantiver em escala industrial os resultados observados nos testes iniciais, a inovação poderá transformar uma perda do processo produtivo em etanol adicional obtido do mesmo grão.

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