Uma bateria recarregável que dispensa lítio, cobalto e níquel, utiliza zinco, manganês e celulose, resiste a perfurações e ao fogo e ainda promete custo significativamente menor. Essa é a tecnologia que a startup Flint, de Singapura, começou a produzir em janeiro de 2026, depois de alguns anos de desenvolvimento.
A chamada Flint Paper Battery utiliza zinco no ânodo e dióxido de manganês no cátodo, além de incorporar celulose em diferentes componentes. O eletrólito é à base de água e a composição elimina também PFAS e solventes inflamáveis empregados em outras tecnologias.
A proposta tenta atacar simultaneamente três dos principais desafios da indústria de baterias: custo, segurança e impacto ambiental.
Mas, apesar dos números apresentados pela empresa serem promissores, ainda existe uma distância importante entre demonstrar que a tecnologia funciona e provar que ela pode disputar em larga escala os mercados hoje dominados pelas baterias de íons de lítio.
Bateria continua funcionando mesmo danificada
Um dos diferenciais mais evidentes está na segurança.
A utilização de um eletrólito aquoso reduz o risco de incêndio e de fuga térmica, problema particularmente relevante nas baterias de íons de lítio. A Flint demonstra células funcionando mesmo depois de sofrerem danos físicos e serem submetidas diretamente a chamas.
Isso também permite formatos diferentes dos tradicionais. Algumas versões podem ser produzidas como folhas finas e flexíveis, enquanto outras assumem formatos conhecidos, como pilhas AA e AAA.
A química básica parte de materiais conhecidos: zinco no ânodo e dióxido de manganês no cátodo. A inovação está na arquitetura e na incorporação da celulose à bateria.
Flint promete até 4,2 volts e mil ciclos
Os dados de desempenho divulgados pela empresa chamam atenção.
Segundo o fundador da Flint, Carlo Charles, as células conseguem atingir até 4,2 volts, com densidade energética declarada de 226 Wh/kg e vida útil de até 1.000 ciclos de recarga.
Esses números colocariam a tecnologia em território competitivo para diversas aplicações atualmente atendidas pelo lítio.
Existe, porém, uma ressalva importante: a Flint ainda mantém detalhes técnicos proprietários em sigilo e não publicou um white paper detalhando o projeto e validando independentemente todas essas características de desempenho, segundo a IEEE Spectrum.
Isso significa que boa parte dos números disponíveis ainda deve ser entendida como desempenho declarado pela própria fabricante.
Custo de US$ 50 por kWh é uma das principais promessas
Talvez uma das características comercialmente mais relevantes seja o preço.
A Flint estima que sua tecnologia possa alcançar US$ 50 por kWh quando produzida em escala, diante de uma faixa de aproximadamente US$ 100 a US$ 130 por kWh usada pela empresa como referência para soluções baseadas em lítio. A própria Flint afirma em seu site que seu custo por kWh pode ser cerca de 1,8 vez inferior ao das baterias tradicionais de íons de lítio.
Parte dessa vantagem viria do uso de matérias-primas mais acessíveis e da possibilidade de aproveitar processos industriais escaláveis.
A empresa afirma ter projetado sua fabricação para ser compatível com processos existentes na indústria de baterias, enquanto a produção utiliza um sistema contínuo conhecido como roll-to-roll, semelhante conceitualmente ao funcionamento de uma impressora industrial.
Logitech já testa a tecnologia
A entrada em produção representa justamente o momento em que essas promessas começam a enfrentar o teste mais importante: produtos reais.
A Flint iniciou a produção em janeiro de 2026 e estabeleceu uma parceria com a Logitech para testar pilhas AAA em seus dispositivos. A startup venceu também o Future Positive Challenge 2025 da fabricante de periféricos.
A Flint participa ainda do programa de tecnologias climáticas da Amazon Devices, que apresenta a tecnologia como uma alternativa baseada em celulose para aplicações que podem ir de dispositivos IoT ao armazenamento estacionário de energia. A própria página do programa ressalta, entretanto, que as alegações técnicas e ambientais são fornecidas pelas empresas participantes.
Compostável, mas com uma ressalva importante
Outro argumento da Flint está no fim da vida útil.
A empresa afirma que a química utilizada permite que os componentes sejam reciclados e que a bateria possui uma rota de descarte compostável. Segundo a fabricante, o processo começa depois da retirada do invólucro selado, permitindo que os componentes sejam expostos ao ambiente e se decomponham.
Portanto, dizer simplesmente que a bateria inteira pode ser jogada diretamente no lixo orgânico seria uma simplificação excessiva.
A questão ambiental também exige avaliação cuidadosa: para que uma bateria seja efetivamente considerada biodegradável, não basta que seus materiais se decomponham; os produtos resultantes dessa degradação também precisam ser ambientalmente seguros, um desafio destacado pela literatura científica sobre baterias biodegradáveis.
Ela pode realmente substituir o lítio?
Em algumas aplicações, a possibilidade já parece concreta. Como substituta universal do lítio, ainda não.
O próprio fundador da Flint reconhece que a empresa não pretende, neste momento, disputar aplicações extremamente exigentes em densidade de potência e longevidade, como veículos elétricos. A estratégia inicial está concentrada em sensores, controles, dispositivos médicos portáteis, eletrônicos de consumo e outros equipamentos de menor demanda energética.
Isso é importante porque o sucesso de uma bateria não depende apenas de volts ou de custo por kWh. Entram na equação densidade energética e de potência, velocidade de carga, estabilidade durante milhares de ciclos, comportamento em diferentes temperaturas, autodescarga, durabilidade, padronização industrial e capacidade de fabricar milhões de células mantendo exatamente o mesmo desempenho.
Nesse sentido, 2026 será menos o ano em que a bateria de papel derrotará o lítio e mais o ano em que a Flint terá de provar que consegue transformar uma tecnologia promissora em produto industrial confiável.
Se conseguir entregar em escala boa densidade energética, mil ciclos, segurança elevada e custos próximos aos prometidos, a tecnologia não precisará substituir imediatamente as baterias de íons de lítio em carros elétricos para se tornar relevante. Existe um enorme mercado de pilhas, sensores, periféricos, dispositivos IoT e eletrônicos de baixo e médio consumo no qual menor custo, segurança e facilidade de descarte podem valer mais do que desempenho energético máximo.
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