Angelo diz que existem argumentos legítimos para acreditar na retomada da economia (Foto: Renata D'Almeida)

Por Angelo Guerreiro*

Após um 2020 atípico marcado pela pandemia do covid-19, o primeiro trimestre de 2021 chamou a atenção por ter apresentado alguns indicadores robustos que culminaram em declarações, como a de Abílio Diniz, que afirmou que o “momento não é de retomada, mas de explosão na economia”.

Realmente uma queda de 4,1% em 2020, quando foi estimada pelo mercado uma queda de até 10%, e o crescimento de 1,2% no PIB do primeiro trimestre de 2021 em relação ao 4º trimestre de 2020, que veio acima do esperado, gerou uma revisão generalizada do PIB de 2021 para cima, onde já se fala de um crescimento acima dos 5%. Este comportamento do PIB teve como consequência uma expectativa na relação dívida/PIB inferior aos 85% em 2021, enquanto imaginou-se que este indicador atingiria os 100% do PIB.

Realmente são notícias muito positivas e animadoras, no entanto, recentemente li uma frase fazendo uma analogia ao disco de vinil que dizia mais ou menos o seguinte: “Para conhecer o disco é preciso escutar os dois lados”.  Dessa forma, vejamos alguns pontos de reflexão antes de adotarmos um otimismo excessivo em nossas decisões:

      • Muitos analistas defendem a tese de que o crescimento do PIB não foi provocado por elementos estruturais, mas pelo aumento do preço das commodities, desvalorização do real e inflação. Defendem ainda que este aumento de preços das commodities não é a repetição do ciclo que aconteceu na primeira década dos anos 2000 e que deve bem mais curto;
      • Dúvidas de como as economias e os mercados reagirão ao início da redução das políticas de estímulos, sobretudo nos Estados Unidos;
      • O Brasil possui atualmente 14,8 milhões de desempregados, representando 14,7% da população economicamente ativa;
      • Existe em andamento uma reforma tributária que, nas palavras de um importante gestor, a proposta  “em vez de simplificar complica” e que “o governo dá um proverbial tiro no pé e a discussão do texto já abala o sentimento econômico”;
      • O país atravessa uma das piores crises hídricas da sua história, gerando incertezas a respeito da geração e fornecimento de energia;
      • Forte aumento no custo de vida das famílias que terá como consequência a redução da renda disponível para o consumo;
      • Aumentos dos juros pelo Banco Central para controlar a inflação com consequente aumento nos juros bancários;
      • E Finalmente no próximo ano teremos eleições presidências que em condições normais já provoca incertezas para o mercado.

    Enfim, existem argumentos legítimos para acreditar na retomada da economia, contudo é importante considerar os elementos de incertezas ao longo do processo decisório.

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    * Angelo Guerreiro é sócio-fundador da filial Salvador da InvestsmartXP. É professor universitário, com MBA pela Universidade de Pittsburgh e pós-graduação em Finanças Corporativas