A escalada das tensões comerciais entre Estados Unidos e Canadá chegou ao setor aeronáutico e pode produzir efeitos indiretos para a indústria brasileira. O presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou impedir a comercialização de aeronaves da canadense Bombardier nos Estados Unidos, movimento que pode abrir novas oportunidades para a Embraer em segmentos nos quais as duas fabricantes disputam clientes.
A ameaça surge em meio ao agravamento da disputa comercial entre os dois países. O Canadá impôs tarifas entre 15% e 50% sobre centenas de produtos norte-americanos, em resposta às tarifas de 50% aplicadas pelos Estados Unidos sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em mercadorias canadenses desde 22 de agosto.
Embora Embraer e Bombardier estejam entre os principais nomes da aviação executiva mundial, a concorrência direta entre as duas empresas ocorre apenas em determinadas categorias.
A fabricante brasileira possui posição competitiva especialmente nos jatos executivos de entrada, enquanto a Bombardier concentra uma parcela importante de sua atuação em aeronaves de maior porte e longo alcance. A disputa entre as duas se torna mais direta nos segmentos de jatos médios e super midsize.
Mercado norte-americano é estratégico para a Embraer
Uma eventual restrição aos aviões da Bombardier poderia alterar a dinâmica competitiva de um dos mercados mais importantes da aviação executiva mundial.
Para a Embraer, o mercado norte-americano já ocupa posição central em sua estratégia comercial.
No início de 2025, a companhia brasileira anunciou um acordo com a operadora de aviação executiva Flexjet envolvendo 182 aeronaves, além de opções para outras 30 unidades. O negócio foi estimado em cerca de US$ 7 bilhões.
O contrato demonstrou a dimensão da presença conquistada pela fabricante brasileira no segmento de aviação executiva nos Estados Unidos e sua capacidade de disputar grandes encomendas no país.
Caso as ameaças contra a Bombardier resultem efetivamente em restrições comerciais, clientes norte-americanos poderão precisar reavaliar fornecedores em determinadas categorias, criando uma possível janela de oportunidade para concorrentes.
Isso, entretanto, não significa que toda a demanda atualmente atendida pela fabricante canadense poderia migrar automaticamente para a Embraer, já que os portfólios das duas empresas não são equivalentes.
Bombardier também possui extensa cadeia produtiva nos EUA
Uma eventual restrição à fabricante canadense apresenta ainda uma particularidade: parte significativa da cadeia produtiva da Bombardier está instalada nos próprios Estados Unidos.
A companhia possui mais de 2,8 mil fornecedores norte-americanos. Além disso, mais da metade dos custos associados ao Global 7500 está relacionada à produção nos Estados Unidos, incluindo componentes fabricados no Texas e motores produzidos em Indiana.
Essa integração demonstra como uma disputa comercial entre países pode atingir cadeias industriais que atravessam fronteiras nacionais.
Uma medida destinada a pressionar uma fabricante canadense poderia, portanto, produzir consequências também para fornecedores e empregos norte-americanos ligados à produção de suas aeronaves.
Embraer pode ganhar espaço, mas cenário ainda é incerto
A possibilidade de a Embraer se beneficiar da disputa depende agora de como as ameaças do governo norte-americano serão transformadas — ou não — em medidas efetivas.
O governo Trump também sinalizou outras possíveis retaliações ao Canadá, incluindo novas medidas envolvendo o setor automotivo, depois do colapso das negociações comerciais entre os dois países.
Para a fabricante brasileira, o episódio coloca a empresa diante de uma oportunidade potencial, mas também evidencia como geopolítica, política comercial e cadeias globais de produção passaram a influenciar diretamente a competição no mercado aeronáutico.
Se as restrições aos jatos canadenses avançarem, a Embraer poderá encontrar espaço adicional principalmente nas categorias em que possui produtos capazes de concorrer diretamente com a Bombardier.
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