O tenista italiano Matteo Berrettini, ex-número 6 do mundo e vice-campeão de Wimbledon em 2021, revelou que integrantes de sua família receberam ameaças de morte atribuídas a apostadores durante Roland Garros. O episódio foi relatado pelo jogador após sua vitória sobre Stan Wawrinka na primeira rodada do US Open.
A declaração surgiu justamente durante uma discussão sobre a relação cada vez mais próxima entre o tênis profissional e o mercado de apostas. Berrettini foi questionado por um jornalista sobre a presença de uma empresa ligada a apostas entre os patrocinadores do torneio norte-americano.
O italiano contou que as mensagens foram enviadas ao celular de seu irmão, Jacopo, depois que ele venceu uma partida em Roland Garros. Segundo Berrettini, o conteúdo dizia, em essência, que sua família seria morta caso o irmão não o convencesse a perder uma partida.
O caso foi comunicado à ATP, e o jogador afirmou que foram fornecidos inclusive os números telefônicos utilizados para enviar as ameaças.
“Precisamos proteger os jogadores”
Para Berrettini, o episódio pessoal faz parte de um problema mais amplo enfrentado pelos tenistas.
O italiano relatou que jogadores recebem mensagens relacionadas aos resultados das partidas e afirmou já ter se sentido desconfortável também com o comportamento de pessoas próximas às quadras.
A preocupação aumenta quando os alvos são atletas mais jovens.
Berrettini observou que ele e o irmão estão na faixa dos 30 anos e possuem maior maturidade para lidar com a situação, mas alertou para o impacto que ameaças semelhantes podem provocar em jogadores mais novos.
O italiano defendeu a criação de uma estrutura mais forte de proteção aos atletas. “Precisamos proteger os jogadores e fazer tudo o que for possível para criar um ambiente seguro para todos”, afirmou.
Problema seria ainda mais grave no circuito Challenger
Berrettini destacou que a situação pode ser particularmente difícil no ATP Challenger Tour, circuito que funciona como uma categoria de acesso aos principais torneios profissionais.
Nessas competições, jogadores geralmente estão mais distantes da estrutura financeira, de segurança e de exposição disponível aos grandes nomes do circuito principal.
Segundo o italiano, há situações especialmente problemáticas envolvendo pessoas próximas às quadras, embora reconheça a dificuldade de prever antecipadamente o comportamento de cada espectador.
O relato chama atenção para uma característica particular do tênis: ao contrário dos esportes coletivos, o jogador está frequentemente sozinho em quadra e pode tornar-se individualmente identificado por apostadores como responsável pelo resultado financeiro de determinada aposta.
Berrettini cita ameaça contra outra tenista italiana
O ex-número 6 do mundo afirmou ainda que o seu caso não foi isolado.
Durante a entrevista, ele lembrou que uma tenista italiana havia recebido mensagens ameaçadoras durante Indian Wells. A jogadora citada foi Lucrezia Stefanini, segundo a imprensa italiana.
Os episódios colocam em evidência uma consequência da expansão das apostas esportivas que vai além das discussões tradicionais sobre manipulação de resultados e integridade das competições: a segurança e a saúde emocional dos próprios atletas.
Apostas e tênis mantêm uma relação contraditória
Apesar das ameaças sofridas pela família, Berrettini fez questão de diferenciar os ataques praticados por apostadores da atividade de apostas esportivas propriamente dita.
O italiano afirmou nunca ter apostado e disse não ter interesse pessoal por cassinos ou jogos do gênero. Ainda assim, reconheceu que as apostas fazem parte do ecossistema econômico do tênis profissional e considerou que, quando conduzidas de maneira controlada e sem provocar consequências prejudiciais, não vê necessariamente algo negativo na atividade.
É justamente essa convivência que torna o debate mais complexo.
De um lado, empresas do setor movimentam recursos e estabelecem relações comerciais com competições esportivas. De outro, a possibilidade de apostar praticamente em tempo real sobre diferentes acontecimentos de uma partida amplia a exposição individual dos atletas às reações de pessoas que perdem dinheiro.
O desafio passa a ser proteger quem está dentro da quadra
O episódio relatado por Berrettini desloca parte da discussão sobre apostas esportivas.
O debate deixa de envolver apenas regulamentação, patrocínio e integridade esportiva e passa a incluir também assédio digital, ameaças e proteção dos jogadores.
Para o italiano, proibir genericamente as apostas não é necessariamente a resposta. Sua cobrança está concentrada na capacidade das organizações esportivas de estabelecer mecanismos mais fortes de proteção.
O alerta ganha peso justamente porque parte de um atleta experiente e que chegou à elite mundial.
Se um ex-número 6 do ranking e finalista de Grand Slam pode ter sua família ameaçada por causa do resultado de uma partida, o problema tende a ser ainda mais delicado para jovens jogadores que começam a carreira sem a mesma estrutura financeira, jurídica e psicológica disponível às estrelas do circuito.
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