Correios acumulam prejuízo de R$ 5,55 bilhões no semestre, apesar de melhora operacional e corte de despesas

Os Correios encerraram o primeiro semestre de 2026 com prejuízo de R$ 5,55 bilhões, resultado 30% pior que a perda de R$ 4,26 bilhões registrada no mesmo período do ano passado. Apesar da deterioração no acumulado dos seis meses, os números do segundo trimestre mostram redução do ritmo das perdas e alguns sinais de melhora operacional.

Entre abril e junho, o prejuízo ficou em R$ 2,39 bilhões, uma redução de 5,5% na comparação anual e de 24,4% em relação ao primeiro trimestre deste ano, quando a estatal havia registrado perda de R$ 3,16 bilhões.

O balanço, divulgado no sábado (29), revela uma empresa que consegue avançar em redução de custos, produtividade e qualidade das entregas, mas continua enfrentando um desequilíbrio financeiro de grandes proporções e dependendo de financiamento e aportes para sustentar sua recuperação.

Receita cai, mas supera previsão da estatal

A receita líquida com vendas e serviços alcançou R$ 7,8 bilhões no primeiro semestre, abaixo dos R$ 8,1 bilhões obtidos no mesmo período de 2025.

Apesar da queda anual, o resultado ficou R$ 202 milhões acima do previsto pela própria empresa, impulsionado principalmente pelos segmentos de logística e mensageria.

Do lado das despesas, os custos dos serviços prestados totalizaram R$ 7,6 bilhões, ficando R$ 1,3 bilhão abaixo do orçamento.

Outro indicador destacado pela companhia foi o Ebitda, que mede o desempenho operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização. O resultado alcançou R$ 910 milhões, 18% acima da meta interna.

Os indicadores mostram melhora em algumas dimensões da operação, mas ainda insuficiente para reverter o resultado final negativo.

Programa de demissão reduz despesas com pessoal

Parte importante da redução dos gastos está relacionada ao quadro de funcionários.

As despesas com pessoal caíram aproximadamente 4%, mesmo após um reajuste salarial de 5,1%. O resultado é atribuído principalmente ao Plano de Demissão Voluntária (PDV).

Desde o início do programa, 6.545 funcionários deixaram a estatal, dos quais 2.767 somente no primeiro semestre deste ano.

A redução do quadro integra o plano de recuperação dos Correios, que tenta adequar sua estrutura de custos a um mercado postal profundamente transformado pela digitalização e pela expansão das empresas privadas de logística e comércio eletrônico.

Correios buscam mais R$ 7 bilhões em financiamento

Apesar das medidas de redução de despesas, a situação financeira ainda exige recursos externos.

Em 2025, os Correios contrataram R$ 12 bilhões em empréstimos com garantia da União, concedidos por um grupo formado por Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Itaú e Santander. A operação foi condicionada à execução de um plano de recuperação da estatal.

Agora, a empresa busca outros R$ 7 bilhões, também com garantia do Tesouro Nacional, ainda em análise.

Paralelamente, negocia outros R$ 2,9 bilhões com o banco do Brics, destinados à modernização de suas operações.

O Orçamento da União para 2027 prevê ainda aporte de R$ 6 bilhões nos Correios, exigência relacionada ao contrato do financiamento anterior.

Somados, os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio: a recuperação da empresa não depende apenas da melhoria da operação, mas também de uma estrutura financeira capaz de atravessar o período de reestruturação.

Dívida recua e caixa chega a R$ 4,9 bilhões

Apesar do prejuízo, alguns indicadores financeiros apresentaram evolução.

O endividamento dos Correios caiu de R$ 14 bilhões para R$ 12,9 bilhões, enquanto a empresa encerrou junho com R$ 4,9 bilhões em caixa e aplicações financeiras.

A estatal também chegou ao fim do semestre sem dívidas com vencimento no curto prazo, o que reduz a pressão imediata sobre a liquidez.

A questão central, entretanto, continua sendo a capacidade de transformar essa folga financeira em uma recuperação estrutural que reduza a necessidade de novos empréstimos e aportes públicos.

Entregas melhoram, mas TCU faz ressalvas ao plano

No lado operacional, a empresa também apresenta avanços. O índice de objetos entregues dentro do prazo superou 90% em junho e 97% em agosto, com São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais apresentando os melhores resultados.

A evolução dos indicadores de entrega é relevante porque a recuperação financeira depende também da capacidade de preservar clientes e competir no mercado de encomendas e logística.

Há, contudo, questionamentos sobre as premissas adotadas para a recuperação. O Tribunal de Contas da União (TCU) já apresentou ressalvas às projeções que sustentam o plano.

Prejuízos se acumulam

Os resultados recentes mostram que o desequilíbrio dos Correios não é pontual.

Em 2024, a estatal registrou prejuízo de R$ 2,6 bilhões. No ano seguinte, a perda saltou para R$ 8,5 bilhões. Agora, somente nos primeiros seis meses de 2026, o resultado negativo já alcança R$ 5,55 bilhões.

Ao mesmo tempo, a redução do prejuízo trimestral, o corte de despesas, a melhora do Ebitda e dos indicadores de entrega indicam avanços na operação.

O desafio é transformar esses ganhos em uma mudança estrutural nas contas.

Os Correios estão ficando operacionalmente mais eficientes, mas a velocidade dessa melhora ainda precisa superar o ritmo de acumulação dos prejuízos e reduzir a dependência de novos financiamentos e recursos da União.

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