Novo exame de sangue identifica sinais de diferentes tipos de câncer analisando alterações no DNA

Pesquisadores da UCLA Health Jonsson Comprehensive Cancer Center, nos Estados Unidos, desenvolveram um novo exame de sangue capaz de identificar sinais associados a diferentes tipos de câncer e outras doenças a partir da análise do DNA que circula naturalmente pela corrente sanguínea.

Batizada de MethylScan, a tecnologia foi desenvolvida por uma equipe liderada pela pesquisadora Jasmine Zhou. O estudo foi publicado em 10 de agosto de 2026 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Diferentemente de muitas biópsias líquidas, que procuram mutações específicas no DNA tumoral, o novo método analisa padrões de metilação — modificações químicas do DNA que podem indicar de qual tecido ele se originou e revelar alterações relacionadas ao desenvolvimento de doenças.

A abordagem abre a possibilidade de, no futuro, utilizar uma única coleta de sangue para procurar simultaneamente sinais de diferentes enfermidades.

DNA liberado pelas células funciona como fonte de informação

Todos os dias, bilhões de células do organismo morrem e liberam pequenos fragmentos de DNA na corrente sanguínea.

Segundo os pesquisadores, entre 50 bilhões e 70 bilhões de células passam diariamente por esse processo. Esses fragmentos carregam informações sobre os tecidos dos quais se originaram.

O problema é encontrar os sinais relevantes em meio a uma enorme quantidade de DNA proveniente de células normais.

Estima-se que 80% a 90% do DNA livre encontrado no sangue tenha origem em células sanguíneas, criando um grande “ruído de fundo” que pode dificultar a identificação de alterações provenientes de órgãos sólidos.

Para contornar essa limitação, os pesquisadores desenvolveram um processo baseado em enzimas que remove parte do DNA considerado irrelevante e concentra na amostra os fragmentos metilados associados a outros tecidos.

Estudo avaliou mais de mil pessoas

O MethylScan foi testado em um estudo envolvendo 1.061 participantes, incluindo voluntários saudáveis e pacientes com diferentes condições.

Foram analisados casos de câncer de:

  • fígado;
  • pulmão;
  • ovário;
  • estômago.

Também participaram pessoas com diferentes doenças hepáticas.

Nos resultados apresentados pelos pesquisadores, o teste identificou aproximadamente 63% dos cânceres analisados, com 98% de especificidade.

Entre os cânceres em estágio inicial, a taxa de detecção ficou em torno de 55%.

Em pacientes considerados de alto risco para câncer de fígado, o MethylScan identificou aproximadamente 80% dos casos.

A especificidade de 98% indica que o método apresentou baixa proporção de resultados positivos entre pessoas que não tinham a condição analisada, um aspecto particularmente importante para tecnologias destinadas ao rastreamento.

Tecnologia também identifica possível órgão de origem

Outro resultado relevante foi a capacidade de utilizar os padrões encontrados no DNA para indicar de qual órgão poderia estar vindo o sinal anormal.

Isso é importante porque detectar uma alteração no sangue representa apenas uma parte do desafio. Em uma eventual aplicação clínica, também seria necessário orientar os médicos sobre onde procurar a doença para realizar exames confirmatórios.

A tecnologia ainda conseguiu diferenciar condições hepáticas, incluindo hepatite viral e doença hepática associada ao metabolismo, alcançando cerca de 85% de precisão nessa classificação.

Sequenciamento pode custar menos de US$ 20 por amostra

O método utilizado para eliminar parte do DNA que não interessa à análise trouxe ainda outro resultado: a redução da quantidade de material que precisa ser sequenciado.

Segundo o estudo, isso permitiu diminuir o custo do sequenciamento para menos de US$ 20 por amostra.

Caso a tecnologia seja posteriormente validada para utilização clínica em larga escala, o custo poderá representar uma vantagem importante para estratégias populacionais de rastreamento.

Exame ainda não está disponível para uso clínico

Apesar dos resultados promissores, o MethylScan ainda é uma tecnologia experimental e não deve ser interpretado como um exame disponível para diagnóstico ou rastreamento rotineiro do câncer.

Os resultados precisam ser confirmados por estudos prospectivos de maior escala, capazes de avaliar o desempenho do teste em populações acompanhadas em condições reais de rastreamento.

Somente após novas etapas de validação clínica e regulatória será possível determinar se a tecnologia poderá efetivamente integrar programas de detecção precoce.

O estudo, entretanto, reforça uma tendência crescente na medicina de precisão: utilizar informações presentes no sangue não apenas para procurar uma doença específica, mas para identificar simultaneamente diferentes alterações biológicas e seus possíveis órgãos de origem.

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