O grupo controlador das redes Habib’s e Ragazzo recorreu à Justiça para obter proteção temporária contra cobranças de credores, alegando uma dívida acumulada de R$ 312,4 milhões. O pedido marca a maior crise financeira enfrentada pela empresa desde sua fundação, em 1988, pelo empresário Alberto Saraiva.
A medida beneficia 174 empresas do conglomerado, incluindo lojas próprias, cozinhas centrais e outras unidades operacionais.
Justiça concede proteção por 60 dias
A decisão foi parcialmente acolhida pelo juiz Jomar Juarez Amorim, no início de julho.
Com a medida, o grupo ficará protegido de ações de execução movidas por credores durante 60 dias, prazo que se estende até setembro. Além disso, fornecedores não poderão interromper o fornecimento de insumos, desde que as novas compras sejam pagas à vista.
Por outro lado, a Justiça negou o pedido para liberar recebíveis que já haviam sido oferecidos como garantia em operações bancárias.
Dívidas bancárias representam maior parte do passivo
Segundo o grupo, mais de R$ 300 milhões da dívida correspondem a financiamentos bancários.
Na ação judicial, a empresa atribui a deterioração financeira a três fatores principais:
- os impactos econômicos da pandemia de Covid-19 entre 2020 e 2022;
- a mudança no comportamento dos consumidores com o crescimento dos aplicativos de entrega;
- o aumento do custo do crédito, influenciado pela elevação da taxa básica de juros (Selic), que chegou a 15% em 2025 e atualmente está em 14,25%.
Mercado se recuperou, mas desafios persistem
Embora a empresa cite a pandemia como um dos principais fatores da crise, os indicadores do setor apontam recuperação do mercado de alimentação fora do lar.
Dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostram que o segmento movimentou cerca de R$ 235 bilhões em 2019, caiu para R$ 175 bilhões em 2020 e alcançou aproximadamente R$ 495 bilhões no último ano, com previsão de atingir R$ 540 bilhões em 2026.
Especialistas do setor avaliam que a dificuldade enfrentada pelo grupo também está relacionada ao ritmo de adaptação às novas exigências do mercado.
Segundo um executivo do varejo alimentar ouvido pela reportagem:
“Outros players mudaram com o tempo e o Habib’s hoje ainda é muito parecido com o que era desde seu início. McDonald’s, Bob’s e Grupo Trigo se mexeram para manter o cliente. E eles não fizeram a lição de casa.”
Recuperação judicial pode ser o próximo passo
O pedido de proteção judicial é considerado uma etapa preliminar para uma eventual recuperação judicial.
Um dia antes de ingressar com a solicitação, o grupo iniciou um procedimento de mediação para renegociar suas dívidas com credores.
Atualmente, a empresa opera cerca de 300 unidades do Habib’s e 200 lojas da rede Ragazzo. Nos últimos meses, o grupo encerrou atividades em cidades como São Paulo, São José do Rio Preto, Limeira e Passos, como parte do processo de reestruturação.
Leia mais:





