A Uber anunciou uma ampla reestruturação que resultará na demissão de aproximadamente 3.300 funcionários, o equivalente a cerca de 10% de sua força de trabalho global. Trata-se do maior corte de pessoal realizado pela companhia desde a pandemia, em 2020.
A decisão chama atenção porque não acontece em meio a uma retração acentuada dos negócios. Pelo contrário: a empresa cresceu significativamente nos últimos anos. O próprio CEO, Dara Khosrowshahi, reconheceu que a expansão tornou a Uber maior e mais forte, mas também trouxe mais camadas hierárquicas, coordenação excessiva e estruturas que deixaram de funcionar adequadamente na escala atual.
O objetivo agora é tornar a organização mais simples, acelerar decisões e liberar recursos para áreas consideradas estratégicas.
Menos gestores e equipes mais enxutas
Uma das principais mudanças está na estrutura de gestão.
A Uber pretende reduzir em cerca de 20% o número de gestores e diminuir quase pela metade as chamadas “microequipes”, estruturas nas quais um gerente possui apenas um ou dois subordinados diretos. Parte dos gestores permanecerá na companhia, mas passará a atuar em funções individuais.
A companhia também está consolidando diferentes equipes e áreas operacionais, numa tentativa de reduzir sobreposições e tornar mais clara a responsabilidade pelas decisões.
A lógica apresentada pela administração é relativamente simples: menos tempo coordenando estruturas e mais tempo executando e desenvolvendo produtos.
Crescimento trouxe complexidade
O movimento evidencia um problema comum a empresas que atravessam períodos acelerados de expansão.
À medida que novos produtos, mercados e unidades de negócio são incorporados, também crescem departamentos, níveis hierárquicos e processos internos. Estruturas criadas para organizar a expansão podem, depois de determinado tamanho, começar a dificultar a própria velocidade que ajudaram a sustentar.
No caso da Uber, a reestruturação acontece apesar do crescimento dos negócios. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou receita de US$ 14,2 bilhões, avanço de 12%, enquanto as reservas brutas cresceram 24%.
Isso diferencia o atual movimento de uma simples redução de custos diante de uma crise financeira.
Recursos serão direcionados para novas prioridades
A redução da estrutura também abre espaço para aumentar investimentos considerados estratégicos para o futuro da companhia.
Entre eles está a corrida pelos veículos autônomos e robotáxis, mercado no qual empresas como Waymo e Tesla representam simultaneamente potenciais parceiros e uma ameaça ao modelo tradicional das plataformas de transporte.
A Uber pretende investir mais de US$ 10 bilhões em sua estratégia relacionada aos veículos autônomos, buscando posicionar sua plataforma como um dos principais canais para a oferta de transporte sem motorista.
A empresa também endurecerá sua política de trabalho remoto. Após a reorganização, apenas cerca de 1% dos funcionários deverá permanecer totalmente remoto, reforçando o modelo que prevê presença no escritório três dias por semana.
Mais do que um corte de pessoal, portanto, a decisão da Uber revela uma discussão que começa a aparecer em grandes empresas de tecnologia: depois de anos construindo estruturas para sustentar o crescimento, algumas companhias começam agora a questionar se essas mesmas estruturas não se tornaram grandes demais para permitir que continuem crescendo com velocidade.
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