O Brasil consolidou-se como uma das principais potências mundiais na produção e exportação de carne bovina, mas a manutenção dessa posição passa cada vez mais pelo atendimento a exigências que vão além de preço, escala e capacidade produtiva.
Novas regras da União Europeia relacionadas ao uso de antimicrobianos e à rastreabilidade dos animais estão criando dificuldades para fornecedores brasileiros e podem afetar as exportações destinadas ao bloco.
Entre as exigências, os exportadores precisam demonstrar que a carne comercializada no mercado europeu provém de animais que não receberam determinados antimicrobianos utilizados para promover o crescimento.
O desafio está em comprovar essa condição durante todo o ciclo de vida do animal.
Modelo brasileiro dificulta rastreamento
A União Europeia exige rastreabilidade ao longo da vida dos bovinos. No Brasil, porém, um mesmo animal pode passar por diferentes propriedades entre nascimento, recria, engorda e abate.
Essa característica da cadeia produtiva torna mais complexa a comprovação de que as exigências europeias foram respeitadas em todas as etapas.
O problema evidencia uma diferença entre a estrutura atual da pecuária brasileira e os padrões de rastreabilidade exigidos por mercados mais rigorosos.
Um programa conduzido pelo Ministério da Agricultura prevê que a rastreabilidade individual completa do rebanho bovino brasileiro seja alcançada até 2032. Até lá, exportadores que atendem mercados com requisitos mais elevados enfrentam o desafio de desenvolver mecanismos capazes de comprovar a origem e o histórico dos animais.
Europa representa mercado de maior valor
A questão ganha relevância porque aproximadamente um quarto da carne bovina importada pela União Europeia vem do Brasil.
Para os frigoríficos brasileiros, o peso do mercado europeu não deve ser avaliado apenas pelo volume. Embora a UE represente uma parcela relativamente pequena das exportações totais de carne bovina do país, os compradores europeus costumam pagar preços médios mais elevados.
Uma eventual redução das vendas para o bloco poderia obrigar exportadores a redirecionar parte da produção para mercados que remuneram menos pelo produto.
Para os europeus, por outro lado, restrições à carne brasileira podem significar a necessidade de ampliar compras de outros fornecedores, alterando fluxos internacionais da proteína.
Exigências também chegam ao setor de aves
A pressão sobre os exportadores brasileiros não está limitada à pecuária bovina.
Autoridades europeias iniciaram, no final de agosto, uma auditoria em frigoríficos brasileiros de frango, em um processo que também pode trazer consequências para as exportações de aves destinadas ao bloco.
Os dois episódios colocam em evidência a crescente importância de critérios sanitários, ambientais e de rastreabilidade para o acesso aos mercados internacionais.
O tema ganha dimensão estratégica justamente quando o Brasil procura ampliar sua presença em mercados exigentes, incluindo Japão e Coreia do Sul.
Mais do que produzir grandes volumes, portanto, a competitividade futura do agronegócio brasileiro pode depender cada vez mais da capacidade de demonstrar como, onde e sob quais condições cada produto foi produzido.
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