Braskem prepara recuperação extrajudicial para renegociar US$ 10,9 bilhões em dívidas

A Braskem vai apresentar um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar US$ 10,9 bilhões em dívidas, cerca de R$ 56 bilhões. A medida foi aprovada pelo conselho de administração nesta segunda-feira (24), data em que terminava a proteção judicial contra cobranças obtida pela petroquímica em junho.

A decisão ocorre após três rodadas de negociações sem acordo entre a companhia e um grupo organizado de detentores de títulos de sua dívida. Entre os credores estão gestoras como Capital Group e AllianceBernstein, além de fundos especializados em empresas em dificuldades financeiras, como Elliott e Strategic Value Partners.

A recuperação extrajudicial permite que uma empresa negocie um plano de reestruturação diretamente com seus credores e posteriormente busque sua homologação judicial, sem necessariamente passar por um processo de recuperação judicial convencional.

Proposta prevê alongamento das dívidas

Nas negociações, a Braskem propôs adiar em cinco anos os vencimentos, reduzir em dois pontos percentuais os juros pagos pelos títulos e obter a possibilidade de, até dezembro de 2028, pagar juros por meio da emissão de mais dívida, em vez de desembolsar dinheiro.

A proposta, entretanto, encontrou forte resistência.

O comitê de credores classificou os termos como “inteiramente insatisfatórios” e questionou particularmente a redução das taxas de juros durante uma reestruturação financeira.

O impasse aumenta a pressão sobre a companhia diante de compromissos financeiros elevados e de uma posição de caixa considerada delicada.

Projeção aponta caixa livre negativo

Sem uma reestruturação, as projeções apresentadas aos credores indicam que a Braskem poderia chegar a dezembro de 2026 com caixa livre negativo em US$ 821 milhões.

Somente no terceiro trimestre, os compromissos financeiros somam US$ 878 milhões, incluindo US$ 188 milhões referentes a juros de títulos.

Em abril, a dívida financeira da petroquímica alcançava US$ 9,5 bilhões, concentrada principalmente em títulos denominados em dólar. Uma característica importante desses papéis é que o principal não é amortizado gradualmente: o pagamento ocorre no vencimento.

Os títulos com vencimentos em 2028 e 2030, juntos, representam quase US$ 2,7 bilhões. A companhia ainda possui uma linha de crédito rotativo de US$ 1 bilhão com vencimento previsto para dezembro.

Endividamento continua elevado

Um dos indicadores acompanhados pelo mercado apresentou melhora recente. A relação entre dívida e geração de caixa recuou de 18,18 vezes no primeiro trimestre para 6,74 vezes no segundo trimestre.

Apesar da redução expressiva, o nível permanece elevado.

A melhora ocorreu em meio ao alívio temporário nos preços do petróleo durante a guerra no Oriente Médio, depois de um período prolongado de margens pressionadas no setor petroquímico.

O desafio da Braskem, portanto, não se resume ao volume da dívida. A companhia precisa compatibilizar seus compromissos financeiros com uma geração de caixa afetada pelas condições adversas enfrentadas pela indústria petroquímica.

Nova estrutura de controle

A reestruturação financeira acontece também em um momento de mudança na governança da companhia.

Em junho, a IG4 Capital assumiu 50,1% das ações com direito a voto e passou a dividir a governança com a Petrobras, que detém 47%.

No mercado acionário, a deterioração das expectativas em relação à petroquímica aparece no desempenho dos papéis. As ações preferenciais encerraram a sexta-feira (21) cotadas a R$ 5,07, acumulando queda de 34,6% no ano.

Com isso, o valor de mercado da Braskem caiu para aproximadamente R$ 3,6 bilhões, montante bastante inferior ao volume de endividamento que agora está no centro das negociações com os credores.

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