A Nestlé iniciou um amplo processo de reestruturação global que prevê a redução de aproximadamente 16 mil postos de trabalho até o fim de 2027. O plano envolve cerca de 12 mil funções administrativas e outras 4 mil posições relacionadas à fabricação e à cadeia de suprimentos.
As medidas fazem parte de uma estratégia de redução de custos e aumento da eficiência operacional em um momento de transformação dos hábitos de consumo e de pressão sobre os resultados da maior companhia de alimentos e bebidas do mundo.
Em julho, a empresa anunciou também que encerrará as atividades de sua fábrica de Diósgyőr, na Hungria, até dezembro de 2026. A unidade produz figuras sazonais de chocolate das marcas KitKat, Smarties e Milkybar, destinadas a mais de 20 países.
Segundo a Nestlé, o fechamento foi motivado pela queda na demanda por produtos sazonais de confeitaria. A fábrica responde por menos de 3% da receita da companhia na Hungria e por apenas 0,4% de seu volume de produção no país.
Medicamentos GLP-1 mudam mercado de alimentos
Paralelamente à reestruturação, a indústria alimentícia acompanha uma transformação potencialmente importante no comportamento dos consumidores: a expansão dos medicamentos da classe GLP-1, utilizados no tratamento do diabetes e da obesidade, como Mounjaro, Ozempic e Wegovy.
Ao reduzir o apetite e modificar padrões alimentares, a popularização desses medicamentos pode afetar determinadas categorias da indústria, especialmente produtos associados ao consumo por impulso e alimentos de maior densidade calórica.
A Nestlé já começou a se posicionar diante dessa mudança. A companhia vem utilizando inteligência artificial e ciência nutricional para desenvolver alimentos direcionados às necessidades de consumidores que utilizam medicamentos GLP-1, incluindo produtos com maior concentração de proteínas e nutrientes.
Isso significa que a transformação provocada por esses medicamentos pode representar não apenas uma ameaça a categorias tradicionais, mas também uma oportunidade para o desenvolvimento de novos mercados.
Confeitaria continua crescendo
Apesar das preocupações sobre mudanças nos hábitos alimentares, os resultados da Nestlé ainda não apontam para um declínio generalizado de sua divisão de confeitaria.
No primeiro semestre de 2026, a companhia registrou crescimento orgânico de 3,6%, com avanço de marcas e categorias consideradas estratégicas. A confeitaria permaneceu entre os negócios que apresentaram crescimento no período.
Os números sugerem que ainda é prematuro atribuir diretamente a reestruturação da companhia à expansão dos medicamentos GLP-1. O fechamento da fábrica húngara, por exemplo, foi relacionado especificamente pela Nestlé à menor demanda por produtos sazonais.
Lucro recua 31,4%
O desempenho financeiro, entretanto, revela os custos do processo de transformação.
No primeiro semestre de 2026, o lucro líquido da Nestlé caiu 31,4%, para 3,5 bilhões de francos suíços (CHF). A companhia atribuiu a redução principalmente aos custos relacionados à reestruturação e à baixa contábil de ativos.
O grupo enfrenta, portanto, dois movimentos simultâneos: precisa aumentar sua eficiência e reduzir despesas enquanto tenta antecipar mudanças que podem alterar profundamente determinados segmentos da indústria alimentícia.
A expansão dos medicamentos GLP-1 acrescenta uma nova variável a esse cenário. Caso seu uso continue crescendo globalmente, fabricantes de chocolates, doces, snacks e outros alimentos poderão precisar adaptar produtos, porções e estratégias para um consumidor que tende a prestar cada vez mais atenção à quantidade e à composição nutricional daquilo que consome.
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