Dolce & Gabbana busca reforçar caixa após dívida crescer 22% e prejuízo operacional superar € 100 milhões

Até uma das marcas mais conhecidas do mercado de luxo mundial pode precisar transformar patrimônio e contratos de longo prazo em dinheiro para fortalecer o caixa.

A Dolce & Gabbana atravessa um período de pressão financeira, em meio à demanda mais fraca por produtos de luxo e à deterioração dos resultados de sua divisão de moda. A dívida financeira líquida do grupo italiano chegou a € 464,5 milhões no ano fiscal encerrado em março, ante € 379,6 milhões no exercício anterior — aumento de aproximadamente 22% em apenas um ano.

Ao mesmo tempo, a receita recuou 2%, para € 1,86 bilhão, enquanto o grupo registrou prejuízo operacional superior a € 100 milhões. O desempenho mais fraco do negócio de moda pressionou os resultados, apesar do crescimento registrado pela divisão de beleza.

A piora dos indicadores financeiros levou a companhia a descumprir determinadas condições previstas em seus contratos de empréstimos. Em negociação com os credores, a Dolce & Gabbana conseguiu uma dispensa temporária dessas exigências, válida até março de 2028.

O acordo, entretanto, estabelece contrapartidas. Até junho de 2027, a empresa deverá concluir uma série de operações extraordinárias destinadas a reforçar sua liquidez.

Entre elas está a possibilidade de realizar operações de sale and leaseback com imóveis em Milão: a companhia vende propriedades e, em seguida, aluga os mesmos espaços para continuar utilizando-os. Dessa maneira, consegue converter patrimônio imobiliário em caixa sem necessariamente abandonar os locais onde mantém suas operações.

Outra fonte de recursos veio de uma parceria já existente. Em abril, a Dolce & Gabbana recebeu US$ 175,5 milhões da EssilorLuxottica, proprietária de marcas como Ray-Ban, após ampliar até 2050 o contrato de licenciamento entre as empresas.

Mudanças também chegam ao comando

A pressão financeira ocorre simultaneamente a mudanças na administração da grife.

Stefano Gabbana deixou a presidência e avalia o futuro de sua participação na companhia. Stefano Cantino, ex-executivo da Gucci, foi nomeado co-CEO ao lado de Alfonso Dolce, irmão de Domenico Dolce.

Fundada em 1985 por Domenico Dolce e Stefano Gabbana, a marca tornou-se uma das grifes italianas mais reconhecidas internacionalmente. Embora os dois tenham encerrado o relacionamento pessoal há mais de duas décadas, continuam sócios e coproprietários da holding que controla 80% da Dolce & Gabbana.

O momento vivido pela companhia ilustra uma distinção importante no mundo empresarial: valor de marca, prestígio e reconhecimento global não são sinônimos de liquidez.

Quando a geração operacional de caixa enfraquece e o endividamento aumenta, mesmo uma empresa posicionada no topo do mercado de luxo pode precisar renegociar compromissos, monetizar ativos e buscar novas fontes de capital.

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