Oferecido pelo Grupo Fleury e pelo Hospital Israelita Albert Einstein, teste Galleri analisa fragmentos de DNA no sangue, mas apresenta limitações na identificação de tumores em estágio inicial.
Um exame de sangue desenvolvido nos Estados Unidos, capaz de investigar sinais associados a mais de 50 tipos de câncer em uma única coleta, começou a ser oferecido no Brasil pelo Grupo Fleury e pelo Hospital Israelita Albert Einstein.
Chamado Galleri, o teste utiliza uma tecnologia de detecção de múltiplos cânceres, conhecida pela sigla MCED (Multi-Cancer Early Detection), para identificar alterações presentes em fragmentos de DNA que circulam no sangue.
A proposta é ampliar as possibilidades de investigação de tumores, especialmente aqueles que não contam com programas de rastreamento de rotina amplamente estabelecidos, como os de pâncreas, fígado, ovário e estômago.
Entretanto, apesar do potencial da tecnologia, os resultados dos estudos clínicos mostram limitações importantes, principalmente na detecção de cânceres em estágio inicial.
Como funciona o exame Galleri?
O teste se baseia na análise do DNA livre circulante no sangue.
Quando as células do organismo morrem, liberam pequenos fragmentos de material genético na circulação sanguínea. Isso também ocorre com células tumorais.
O Galleri procura identificar padrões de metilação do DNA, modificações químicas associadas à regulação da atividade dos genes.
Determinados padrões podem indicar a presença de um sinal relacionado ao câncer e ajudar a apontar o provável tecido ou órgão de origem.
A análise é realizada a partir de uma coleta de sangue, sem necessidade de procedimentos invasivos para a obtenção da amostra inicial.
O exame, contudo, não estabelece sozinho um diagnóstico definitivo. Quando há um resultado positivo, são necessários exames complementares para investigar e confirmar a presença de um tumor.
Estudo aponta alta especificidade, mas sensibilidade limitada
Os dados apresentados do estudo clínico PATHFINDER 2 indicam que o Galleri alcançou 99,85% de especificidade.
Isso significa que, entre pessoas sem câncer, o exame classificou corretamente a grande maioria como negativas, com menos de dois resultados falsamente positivos a cada mil pessoas.
A sensibilidade, porém, foi de 35%, indicando que o teste identificou aproximadamente um em cada três cânceres existentes no grupo avaliado.
Nos tumores em estágio I, a sensibilidade caiu para 21,4%.
Esse resultado merece atenção porque o diagnóstico de tumores em fases iniciais costuma oferecer mais possibilidades de tratamento, dependendo do tipo de câncer.
A diferença entre especificidade e sensibilidade é fundamental para interpretar o desempenho do exame.
Um teste pode apresentar poucos falsos positivos e, ao mesmo tempo, deixar de identificar uma parcela considerável dos casos existentes.
O que significa um resultado positivo?
Segundo os números apresentados do PATHFINDER 2, o câncer foi confirmado em 77% dos casos com resultado positivo.
Esse indicador corresponde ao valor preditivo positivo, que expressa a proporção de resultados positivos efetivamente associados à presença da doença na população estudada.
O percentual não significa que o exame tenha 77% de precisão para todos os pacientes ou situações clínicas.
O desempenho pode variar conforme as características das pessoas examinadas, incluindo a frequência de câncer na população avaliada.
Por isso, um resultado positivo exige investigação médica complementar, enquanto um resultado negativo não permite excluir a possibilidade de câncer.
Exame não substitui rastreamentos convencionais
Uma das principais limitações do Galleri é sua menor capacidade de identificar determinados tumores em estágios iniciais.
Dessa forma, o teste não deve ser interpretado como substituto dos métodos de rastreamento já utilizados na prática clínica.
Mamografia, exames de rastreamento do câncer do colo do útero e procedimentos indicados para investigação do câncer colorretal, por exemplo, continuam tendo suas próprias recomendações, conforme a idade e os fatores de risco de cada pessoa.
Também é importante distinguir o rastreamento de pessoas sem sintomas da investigação de sinais clínicos suspeitos.
A presença de sintomas que possam indicar câncer exige avaliação médica apropriada, independentemente do resultado de um teste de detecção múltipla.
Quanto custa o Galleri no Brasil?
O Galleri está sendo oferecido no mercado brasileiro por R$ 6.990, segundo as informações divulgadas sobre sua disponibilização pelo Grupo Fleury e pelo Hospital Israelita Albert Einstein.
O exame não conta com cobertura dos planos de saúde, conforme o material apresentado.
Outro ponto relevante é a situação regulatória nos Estados Unidos. O teste ainda não possui aprovação formal da Food and Drug Administration (FDA), agência responsável pela regulação de medicamentos e dispositivos médicos no país.
A ausência dessa aprovação não deve ser confundida automaticamente com uma avaliação de eficácia ou segurança para todas as formas de utilização do exame, mas é uma informação relevante para a compreensão de seu estágio regulatório.
Tecnologia representa avanço, mas ainda apresenta desafios
Os testes de detecção múltipla de câncer representam uma frente de desenvolvimento tecnológico na medicina diagnóstica.
A possibilidade de investigar sinais de dezenas de tumores por meio de uma única amostra de sangue desperta interesse especialmente em relação aos cânceres para os quais não existem programas de rastreamento de rotina.
Entretanto, a incorporação dessas tecnologias à prática clínica exige avaliar não apenas sua capacidade de identificar sinais da doença, mas também seus efeitos sobre diagnósticos, tratamentos e resultados de saúde.
Entre os desafios estão a identificação de tumores em fases iniciais, a investigação dos resultados positivos e a demonstração de benefícios clínicos para as populações examinadas.
O Galleri amplia as possibilidades tecnológicas de investigação do câncer, mas seus resultados precisam ser interpretados com cautela. A alta especificidade não elimina a possibilidade de falsos negativos, especialmente em tumores iniciais, e o exame não substitui o acompanhamento médico nem os métodos de rastreamento recomendados.
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