quarta-feira, abril 17, 2024
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Uma sombra que sempre nos acompanha: o risco

*Por João Victorino

A maldição do Titanic? Depois da recente e trágica implosão do submersível que vitimou cinco pessoas numa jornada para ver os restos do naufrágio do famoso navio Titanic (afundado a uma profundidade de mais de 3.800 metros da superfície), a mítica embarcação, mais de 110 anos depois do primeiro acidente, passou a ter mais uma tragédia adicionada a sua história.

No primeiro naufrágio, acontecido em 1912, morreram mais de 1.500 pessoas. Certamente, todo mundo deve ter ouvido a história e se lembrar da frase dita pelo comandante do navio no filme (Titanic – 1997): “Nem Deus conseguirá afundar esse navio!” Nesse sentido, somos levados a refletir sobre um tema que nem sempre é lembrado em nossas decisões, e muitas vezes não só não é pensado, como também é negligenciado: o risco!

Afinal, o que é risco? É a possibilidade, descrita normalmente em porcentagens de probabilidade, de algo dar errado. Em investimentos e finanças, é a possibilidade de você ter perdas. Outra definição de risco é a possibilidade de você ter perda definitiva de capital em algum investimento.

O diretor de cinema James Cameron, que dirigiu o famoso filme sobre o naufrágio, declarou que tinha receio de que as pessoas que estavam participando dessas expedições de submersíveis para visitar o icônico naufrágio, não tivessem acesso à informação completa dos riscos envolvidos. Ou seja, as pessoas estavam participando de uma atividade de altíssimo risco e podiam não estar totalmente cientes do que realmente poderia acontecer e também das probabilidades de cada resultado possível. Isso me lembra a história da roleta russa.

Risco e tomada de decisão

Numa roleta russa, uma pessoa usa um revólver que contém somente uma bala dentro das seis câmaras possíveis. Então, a câmara é girada e, quando o giro termina, o gatilho é acionado, apontado para a cabeça do apostador. Por isso o nome roleta. A probabilidade da bala estar na câmara acionada é de 16,7% – uma vez a cada 6 acionadas. Porém, a questão que se apresenta aqui não é a estatística em si, e sim uma decisão moral.

Quanto vale uma vida? Decisões morais dizem respeito ao conceito mais profundo de certo e errado na vida das pessoas.

Do ponto de vista de uma empresa seguradora, o valor da vida é mensurado sob um aspecto meramente financeiro. É comum, em coberturas de seguros, o cálculo ser feito a partir de uma referência de geração de renda ou riqueza pela pessoa a ser segurada.

Porém, do ponto de vista da própria pessoa, o cálculo é outro. Se é que deveria existir esse cálculo. Quando o que a pessoa tem a perder não pode ser substituído, mesmo que seja baixa a probabilidade de isso acontecer, a pessoa não deveria fazer a aposta, ou se colocar na situação. Não deveria participar do jogo, ou da jornada, no caso do submersível.

Aprenda a controlar seus riscos nas finanças

Nos investimentos, a analogia também pode ser aplicada. O investidor de bom senso – que busca ter uma vida financeira equilibrada – não coloca todos os seus recursos numa só aposta. Mesmo que o risco de perda seja baixo. Essa é uma decisão difícil para o investidor.

O senhor mercado chama isso de “All in”, ou seja, o investidor coloca 100% de suas economias numa aposta só – ações, renda fixa, imóveis, etc. Claro que tem gente que tem 100% de sua grana em imóveis e está satisfeito com isso. Mas lembre-se, por exemplo, da época da Covid 19 e das pessoas que tinham investimentos em imóveis comerciais.

Durante um período grande de tempo, lojas foram fechadas, imóveis devolvidos e isso demorou para mudar. Na realidade, em diversos locais, ainda hoje não voltou 100% ao que era antes. Num momento de virada (ou de crise) no mercado em que o investidor está 100% investido num tipo só de ativo, ele pode sair machucado, ou até sair do jogo: perder tudo.

Em investidores que apostam em posições vendidas, naquele em que você aposta que uma ação vai cair, e ela eventualmente sobe muito rapidamente (evento chamado short squeeze), a perda pode ser incalculável, não tem limite!

Quais são os tipos de riscos a que você tem exposição ao investir? O investimento é uma atividade como qualquer outra que envolve risco. Dessa maneira, é preciso conhecer os tipos de risco a que você se expõe ao entrar em um investimento.

Risco de mercado
O risco de mercado está relacionado às flutuações de indicadores macroeconômicos, como taxa de juros, inflação, câmbio e seus possíveis impactos no mercado de capitais (ações, títulos, etc). Para reduzir o risco de mercado, é essencial diversificar seus investimentos, reduzindo sua exposição a apenas um tipo de risco.

Risco de liquidez

Já o risco de liquidez diz respeito a dois fatores principais: O primeiro tem a ver com o tempo/demora para o dinheiro entrar na conta. Pensando nisso, avalie com cuidado as datas de vencimento/resgate de seu investimento, para que você tenha um bom gerenciamento de risco e, assim, diminua as chances de não ter dinheiro em conta quando precisar. O segundo está relacionado à quantidade de compradores dispostos a adquirirem o papel que você queira vender no momento. Caso não haja nenhum agente interessado, você pode se ver na alternativa de ter que abaixar o preço de venda para conseguir comprador.

Risco de crédito

O risco de crédito, por sua vez, está relacionado à capacidade (ou não) de a empresa (ou o governo) pagar o que deve. Em bom português, estamos falando do famoso “risco de calote”. Dessa maneira, uma das formas de gerenciar adequadamente seu risco de crédito é avaliar a nota das empresas/governos para os quais você empresta seu dinheiro, através dos ratings (classificações de risco dadas por agências como Fitch, S&P, Moody’s). Verifique se o título em que você planeja investir possui garantia do FGC (Fundo Garantidor de Crédito).

Além destes três tipos principais de risco, ainda temos os seguintes:

Risco Operacional: a possibilidade de perder dinheiro num investimento que foi mal administrado – Ações de empresas com executivos incompetentes, por exemplo.

Risco Legal: uma modificação na legislação que causa uma perda definitiva para seu investimento – Aumento de algum imposto sobre um título que não ainda não está apto a ser liquidado/recebido.

Risco Reputacional: uma queda na confiabilidade da empresa que vende uma debênture, por algum escândalo de má gestão.

Risco Ambiental: cada vez mais discutido e levado em consideração nos investimentos – uma empresa que comete algum crime ambiental, ou não segue uma regra, colocando em risco seus negócios ou parte deles. Vários exemplos vem ocorrendo nos últimos anos – empresas que têm plantas fabris com problemas de segurança aos funcionários, que sujam o meio ambiente, ou fabricam produtos sem a devida fiscalização de qualidade. Estruturas que causam acidentes de grande magnitude, impactando a comunidade ao redor. Vazamentos de produtos contaminantes, entre outros.

Enfim, é preciso, em todos os sentidos, analisar os riscos, pois eles são sombras que nos acompanham sempre e servem para nos deixar alertas.


*João Victorino é administrador de empresas e especialista em finanças pessoais. Com uma carreira bem-sucedida, é líder em diversidade e inclusão na Visa, atuando em prol de pessoas com deficiência. Busca contribuir para que pessoas melhorem suas finanças e prosperem em seus projetos e carreiras. Para isso, idealizou e lidera o canal A Hora do Dinheiro com conteúdo gratuito e uma linguagem simples, objetiva e inclusiva.

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