O avanço do mercado de trabalho brasileiro, aliado às transformações nas dinâmicas corporativas, tem reposicionado as chamadas soft skills como fator decisivo para crescimento profissional. Dados da PNAD Contínua indicam que o país alcançou mais de 103 milhões de pessoas ocupadas — o maior patamar da série histórica — ao mesmo tempo em que empresas passam a priorizar habilidades interpessoais em detrimento de competências puramente técnicas.
Um estudo da Harvard Business Review, que analisou cerca de 1 mil ocupações e 70 milhões de transições de carreira, aponta que profissionais com maior domínio de habilidades comportamentais têm mais chances de alcançar salários mais altos e cargos de liderança.
Nova lógica do mercado
A mudança reflete uma transição no perfil desejado pelas empresas. Levantamento do Observatório de Carreiras e Mercado da PUCPR revela que as habilidades mais buscadas atualmente são relacionamento interpessoal (15,5%), solução de problemas (14,7%) e comunicação escrita (9,3%).
Apesar da evolução, especialistas avaliam que o mercado ainda carrega traços de um modelo produtivo mais mecanizado, semelhante ao retratado no filme Tempos Modernos, no qual a execução técnica predominava sobre as competências humanas.
Mais do que técnica
Para Rodrigo Almeida, mestre em Gestão e Tecnologia Industrial e diretor da CRIATIVOS, a falta de atenção às habilidades sociais pode se tornar um obstáculo para a progressão na carreira.
“Muitos profissionais são excelentes tecnicamente, mas crescer exige mais do que entregar bem. É preciso saber lidar com pessoas, influenciar decisões e ser percebido como alguém capaz de atuar em ambientes complexos”, afirma.
Segundo ele, competências como comunicação assertiva, inteligência emocional, escuta ativa e empatia são fundamentais para quem busca ascensão profissional.
Liderança e percepção de valor
À medida que o profissional avança na carreira, novas exigências surgem, como capacidade de influência, gestão de pessoas, adaptabilidade e resolução de conflitos.
“Liderança não pode ser confundida com chefia. Trata-se de construir capital relacional e simbólico dentro das organizações, elementos invisíveis, mas decisivos para o crescimento”, destaca Rodrigo.
Tendência consolidada
Embora o tema tenha ganhado força recentemente, a valorização das habilidades interpessoais não é nova. Já em 1918, o estudo A Study of Engineering Education, de Charles Riborg Mann, indicava que qualidades pessoais eram até sete vezes mais determinantes para o sucesso profissional do que o conhecimento técnico.
Para especialistas, o cenário atual reforça que não existe uma trajetória linear de carreira. O crescimento depende de fatores como contexto, posicionamento, percepção de valor e capacidade de adaptação.
“Crescer na carreira não está restrito a fazer bem o que já se faz. É preciso entender o ambiente, construir presença e ocupar espaços de decisão”, conclui Rodrigo Almeida.
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