A intensificação das tensões militares entre Irã e Israel em 2025 e 2026 passou a gerar impactos estruturais sobre cadeias globais ligadas ao agronegócio. O conflito amplia a volatilidade em insumos estratégicos, eleva custos logísticos e adiciona risco geopolítico ao planejamento agrícola — especialmente para países importadores de fertilizantes e energia, como o Brasil.
O ponto mais sensível permanece o Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do comércio global de petróleo. Restrições severas ao tráfego marítimo podem elevar o barril acima de US$ 100, segundo analistas do setor energético. O efeito se estende ao diesel, ao bunker marítimo e aos fretes internacionais.
Fertilizantes no radar
O Irã ocupa posição relevante nas exportações globais de ureia, insumo central para culturas como milho e trigo. Segundo relatório do IMARC Group (Urea Pricing Report, fev/2026), a ureia no Oriente Médio foi negociada em torno de US$ 630 por tonelada, refletindo volatilidade logística e risco geopolítico.
O Brasil importa parcela significativa de nitrogenados da região. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento indicam que fertilizantes representam entre 30% e 40% do custo operacional de culturas como milho e trigo. Oscilações nos preços internacionais impactam diretamente a formação de custos e as decisões de plantio.
Segundo relatório GIEWS Country Brief da Food and Agriculture Organization (FAO), a produção de cereais do Irã em 2025 ficou cerca de 10% abaixo da média dos últimos cinco anos, em meio a secas severas e interrupções energéticas.
Impactos regionais
Na Síria, também segundo a FAO, a produção de cereais em 2025 ficou mais de 60% abaixo da média histórica, agravando a insegurança alimentar.
Em Israel, o relatório Grain and Feed Annual 2025/2026 do United States Department of Agriculture (USDA) apontou danos a granjas e dificuldades operacionais em zonas de conflito. O país depende fortemente da importação de trigo e grãos para consumo humano e ração animal, o que amplia a sensibilidade a fretes e seguros marítimos.
Fluxos comerciais do Brasil
Dados do Agrostat, do Ministério da Agricultura, mostram que as exportações brasileiras do agro para Irã e Israel somaram US$ 3,40 bilhões em 2025, ante US$ 3,44 bilhões em 2024. Embora o valor tenha oscilado marginalmente (-1,2%), o volume físico cresceu, passando de 9,74 milhões para 11,97 milhões de toneladas.
O Irã segue como principal destino regional, com US$ 2,92 bilhões em 2025. O setor de cereais quase dobrou de valor, alcançando US$ 1,98 bilhão. Já o complexo soja somou US$ 745,82 milhões, enquanto o setor de carnes registrou retração significativa.
Para Israel, as exportações avançaram de US$ 334,99 milhões para US$ 475,09 milhões no período, impulsionadas pelo setor de carnes (US$ 238,82 milhões).
Risco geopolítico entra na planilha
A escalada militar adiciona uma variável geopolítica permanente ao planejamento agrícola. Para exportadores de grãos e importadores de insumos, o conflito amplia custos de produção, eleva a cautela na concessão de crédito e exige estratégias mais robustas de hedge cambial e de insumos.
A geopolítica deixou de ser apenas pano de fundo — tornou-se componente estrutural da gestão do agro global.
Leia mais:
Petróleo dispara com escalada no Oriente Médio e ameaça elevar preços acima de US$ 100.





