Um projeto inédito envolvendo grandes petroleiras e a academia brasileira promete transformar a forma como o país mede seu potencial de estocagem de carbono. Batizado de Carbon Countdown, o estudo vai criar a maior “linha de base” de carbono do solo e das florestas do Brasil, com investimento de R$ 108 milhões, dividido entre Petrobras e Shell.
A pesquisa será conduzida pelo CCarbon, centro vinculado à Esalq-USP, e terá execução entre 2026 e 2030. O objetivo é produzir o mapa mais preciso já elaborado sobre a capacidade de solos e florestas brasileiras de sequestrar carbono — um dado estratégico para políticas climáticas, mercado de carbono e agronegócio.
Escala inédita de dados
Para especialistas do setor florestal e agronômico, a dimensão do projeto impressiona:
- 6.500 pontos de coleta, cobrindo todos os biomas e estados do país;
- Áreas analisadas: agricultura, pecuária, florestas plantadas e áreas degradadas;
- Profundidade do solo: até 1 metro, com mais de 250 mil amostras;
- Biomassa florestal: medições em 1.000 parcelas de florestas nativas para calibrar cálculos de CO₂.
A iniciativa pretende criar uma métrica nacional própria de carbono, reduzindo a dependência de parâmetros internacionais utilizados hoje por setores como o agronegócio e a silvicultura. Com dados mais precisos, o Brasil poderá liderar o debate global sobre o real potencial de suas florestas e solos na mitigação das mudanças climáticas.
O debate sobre o papel das petroleiras
O envolvimento de empresas do setor fóssil, no entanto, alimenta controvérsias. Segundo Petrobras e Shell, o investimento está ligado a obrigações de pesquisa e desenvolvimento reguladas pela ANP e busca conferir maior integridade técnica aos ativos de carbono, com aplicações futuras em compensações ambientais e biocombustíveis.
Organizações da sociedade civil, como o Instituto Arayara, alertam para o risco de greenwashing — o uso de estudos ambientais para legitimar a continuidade da exploração de combustíveis fósseis por meio de créditos de carbono.
Para o coordenador do projeto, Maurício Cherubin, da Esalq-USP, a geração de dados de alta precisão é essencial para qualquer estratégia climática séria. “Sem uma base científica robusta, não há política ambiental consistente nem mercado de carbono confiável”, argumenta.
Entre ciência, mercado e disputa narrativa, o Carbon Countdown pode se tornar um marco na forma como o Brasil mede — e negocia — seu capital ambiental.
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